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Brasil. No país dos contrastes, até o otimismo é desigual

Brasil. No país dos contrastes, até o otimismo é desigual

São Paulo é, como grande parte dos centros urbanos brasileiros, uma cidade partida em duas realidades. Num mundo vive a favela pobre, controlada por organizações criminosas, esquecida pelo Estado federal e sem ambições prósperas. E na outra vida, no luxo da alta finança na Avenida Paulista, encontramos quem veja o futuro com grande otimismo.

A chuva intensa que por estes dias cai em São Paulo potencia a imaginação. Como será viver no interior de uma comunidade em que as casa frágeis - se é que podemos chamar-lhes de casas - se aglomeram e, à distância, percebemos não haver qualquer condição de habitabilidade? Tentamos entrar, mas o aviso foi claro: "Não venha".

Por estes dias, em que aumenta a tensão, qualquer "gringo" - é o que chamam aos curiosos forasteiros - é suspeito.

Tentamos entrar nas proximidades do Capão Redondo que, em tempos, foi considerada a mais violenta favela do mundo, mas, ali, quem manda é o PCC. O Primeiro Comando da Capital é uma organização criminosa que domina o tráfico de droga e, ao mesmo tempo, organiza a favela. Um Estado dentro de um Estado. Se o "gringo" entrasse, as represálias podiam ser graves para a ONG que fizesse o convite.

No exterior da favela, obtivemos depoimentos de quem lá mora. Fabiana trabalha no centro de São Paulo e vive, ou melhor, dorme em Paraisópolis. O sorriso envergonhado deixa entender que os elogios à comunidade são também uma forma de se proteger.

De paraíso, a comunidade só terá mesmo o nome. É o crime organizado, embora disfarçado, que garante a segurança de quem lá vive.

"Lá na comunidade, não se vê ninguém com revólver na mão. Tem uns olheiros, mas é super tranquilo. Eu sinto-me aconchegada lá", conta, à .

Favela em São Paulo Foto: Sérgio Costa/RR Favela em São Paulo Foto: Sérgio Costa/RR Favela em São Paulo Foto: Sérgio Costa/RR Favela em São Paulo Foto: Sérgio Costa/RR

Fabiana relata casos extremos de pobreza que obrigam a solidariedade de terceiros, em que o Estado teima em não chegar: "Há casos e casos. Tem alguns que são extremos, um não tem a mesma oportunidade que o outro. Mas é assim, lá tem muitos lugares que eles oferecem, oportunidades para trabalhar, para reciclar as pessoas e conseguir estabilizar um pouco melhor. Agora, está a necessitar de muitas doações, porque o Estado não ajuda".

Já Kate, que com um sorriso acena falar à e, com orgulho, descreve as melhorias em Taboão da Serra, local onde mora: "Hoje, já está tudo asfaltado. Há 20 anos atrás era barro. Terra mesmo, se chovia, não tinha como andar".

Kate passa a semana em casa dos patrões. "Fica mais fácil", como aqui dizem. Mais fácil, mas com prejuízo para o convívio familiar.

São residentes das comunidades que trabalham num outro mundo, um outro Brasil. Porque há vários Brasis. São Paulo é uma cidade partida, como são todos os centros urbanos no Brasil. Entre a pobreza extrema e a alta finança e o bem estar, é o país que vai da fome da favela aos escritórios nos enormes prédios da Avenida Paulista, onde circula dinheiro, conhecimento e a alta tecnologia.

E quando os mundos se parecem unir, as divisões, afinal, persistem. Nos edifícios residenciais, há quase sempre dois elevadores. O elevador social - por onde sobem, descansadamente, os residentes e convidados - e o elevador dos empregados. No elevador social, empregado não entra. No exterior dos apartamentos, há pouca mistura.

É neste universo de contrastes que o Brasil vai a votos. Entre as classes mais desfavorecidas, uma expetativa de uma vida melhor é limitada. Há sempre esperança, mas a dúvida quanto ao futuro é sempre mais pesada.

"É o que a gente espera que seja. Todos prometem, agora que cumpram", apela Fabiana.

Avenida Paulista em São Paulo Foto: Wilfredor/Wikimedia Avenida Paulista em São Paulo Foto: Wilfredor/Wikimedia

Continuando na cidade que gosta de se mostrar, dos edifícios imponentes, entre os empresários a expetativa quanto ao futuro é quase ilimitada. O momento é favorável, o que motiva elogios à política de Bolsonaro, nas palavras de Ricardo, um empresário de São Paulo: "Depender do que acontecer com Bolsonaro, não é aquele Presidente, mas a sua equipa acaba por cumprir o dever, seria bem mais interessante o Bolsonaro ficar. Com essa equipa que passou pela pandemia. Logicamente. não deve ter sido uma bela experiência, mas mesmo assim a situação retomou e se manteve".

Também Lana, outra empresária, encara com otimismo o futuro que diz estar a ser construído no presente: "Sou uma empresária bem otimista em relação à economia. Depois da última onda da Covid-19, o Governo federal tem ajudado bastante os empresários. Temos estado bastante felizes com o resultado das coisas e estamos otimistas em relação aos próximos anos. O Brasil é uma potência, acreditamos que as coisas acontecem aqui, em que se tem trabalho bem feito e honesto".

São palavras de outro mundo. Quem vem da favela, diz sentir na pele a indiferença. "Eles", assim dizem, - "eles" porque há sempre uma divisão - não vêm.

"A maioria não vê. Não sente. A maioria não vê o que os pobre passam", acredita Kate.

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