ionline.sapo.ptAfonso de Melo - 5 jul. 10:37

A morte tem mau perder

A morte tem mau perder

Gosto de imaginar que morreu com a bola nos pés, ele adorava ter a bola nos pés e fazer dribles curtos e desconcertantes e, ainda por cima, gozar com o adversário depois de o ver completamente desconcertado.

A morte, hoje, chega depressa. Ou as notícias da morte, quero dizer. A minha varanda ferve de um calor bruto de pardais excitados em volta de bagos de arroz. O telefone toca e o Vítor Rainho diz, do outro lado: “Morreu o Muller!” Tive vontade de responder com uma pergunta, como o Nelson Rodrigues quando a mulher lhe disse que tinha morrido o Guimarães Rosa: “Morreu como, se estava vivo?” Nesse momento não estava. Estava morto, na relva do campo Engenheiro Carlos Salema, na que foi em tempos a Azinhaga dos Alfinetes, lugar onde vi tantos jogos e também joguei tantas vezes.

Há quinze dias tinha escrito aqui uma crónica sobre o meu amigo e companheiro de escola, Rui Ribeiro, filho do Manel Padeiro, o melhor jogador da nossa infância, nos Olivais Sul, que todos conhecíamos por Muller (sem ¨ que nos Olivais Sul não há dessas mariquices). Agora escrevo outra vez, sabendo que ele não me lê. Morreu no campo e, pelo menos, terá morrido com um sorriso, no momento em que colapsou, sábado ao fim da manhã, num jogo de velhas guardas que antecipava um almoço que duraria pela tarde.

Tínhamos há muito um encontro marcado, ali num tasco do Prior Velho, e acho que é preciso adiá-lo por mais uns tempos, não sei quanto é que me sobra para seguir o mesmo caminho do que ele. Imagino que andasse a fazer negaças à morte, cultivando a barriga, ele que já tinha uma pancinha mal disfarçada quando era garoto, antes de ser profissional no Oriental, no Académico de Viseu, no Portimonense...

Imagino que tenha tentado fintar a Senhora da Gadanha, naquele jeito muito próprio dele de colar a bola na ponta do pé até que o adversário esticasse o dele e, de repente, percebesse que a bola lhe passara por entre as pernas. Foi nesse momento preciso, aposto, que a velha cabra o matou. A morte tem mau perder. E o Muller ria-se depois de cada finta. Sem vergonha de saber como se goza.

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