jornaleconomico.ptAna Pina - 5 jul. 10:36

Estará o fim da ordem liberal do mundo iminente ou essa ordem nunca existiu?

Estará o fim da ordem liberal do mundo iminente ou essa ordem nunca existiu?

As atuais instituições multilaterais não estão a ser capazes de promover a igualdade entre Estados, e os princípios e normas definidos como liberais e essenciais à democracia.

O crescimento de novas potências mundiais, como a China, os movimentos inquietantes da Rússia, acompanhados pelas constantes tensões entre os maiores atores da globalização, são acontecimentos recentes que cada vez mais desafiam a ordem liberal mundial.

Multiplicam-se os sinais de “fim de ciclo”, com consequências de longo alcance na resiliência do sistema internacional, nas organizações multilaterais e até na estrutura institucional dos estados individuais. No entanto, há quem ainda defenda que esta ordem liberal do mundo não passa de uma narrativa idealista que nunca existiu.

De forma a proporcionar uma melhor reflexão sobre o assunto, comecemos por defini-lo. Entende-se como ordem liberal mundial a cooperação entre estados democráticos liberais, liderada por instituições multilaterais e baseada em regras, normas e princípios que organizam o comportamento de Estados e instituições.

De facto, apenas 45,7% dos estados do mundo são considerados democráticos e apenas 6,4% vivem numa democracia plena. Cerca de metade do mundo não conhece sequer o significado do conceito liberdade, nem o que são efetivamente os direitos humanos.

Este é o argumento usado por aqueles que acreditam que a ordem liberal do mundo não passa de um deslumbre. Como é que se pode falar de ordem liberal mundial se mais de 50% do mundo jamais vivenciou uma democracia? Vislumbrando o mundo que nos rodeia, podemos antes dizer que estamos perante uma “Western World Order” e não uma “Liberal World Order”.

No entanto, o mundo está a mudar. Não existe mais um mundo ocidentalizado, um mundo atlântico, baseado num eixo entre a Europa e a América, o mundo passou a ser Indo-Pacífico. Estamos a viver uma mudança no epicentro da atividade económica mundial e é isso que nos afeta e nos dá a perceção que a ordem liberal mundial está prestes a ceder.

Estas organizações já não se encaixam nos objetivos definidos, e a necessidade de reformas profundas é evidente, em particular a criação de um sistema de gestão de crises internacionais.

Esta última crise sanitária mundial foi a prova de que está em falta uma organização com poder e meios suficientes para agir perante uma crise global. Apenas a União Europeia, algumas alianças internacionais, tanto públicas como privadas – nomeadamente a Gavi, ou a Organização Mundial da Saúde, tiveram uma resposta minimamente consistente a esta última crise.

O mesmo está a acontecer no caso da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, na qual nem a OSCE Organização para a Segurança e Cooperação na Europa tem conseguido ter um papel digno das suas funções dentro deste cenário.

Parece haver, de facto, um problema no que respeita a estas organizações, porque na verdade elas existem e são credíveis, mas em momentos de crise não estão a conseguir agir.

Surgem, portanto, as seguintes questões: teremos sequer instituições capazes de resolver conflitos e disputas entre Estados de forma a evitar o pior nível de conflito? Ou estará, de facto, iminente o início de uma nova era rodeada de incerteza, onde as instituições que conhecemos hoje já não têm poder suficiente para agir?

Este foi, aliás, um dos temas debatidos no Economia Viva, ciclo de debates económicos promovido pelo Nova Economics Club e pela Nova Students’ Union, em fevereiro, na Nova School of Business and Economics, e a cujo debate pode assistir aqui.

Um tópico que cada vez mais urge ser abordado, pois grandes mudanças estão a desenhar-se à vista de todos na nossa sociedade e é de extrema importância que se desenvolvam e se afirmem instituições fortes e credíveis, que coordenem e estejam determinadas em assegurar os direitos, liberdades e garantias num mundo em rápida e constante evolução.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.

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