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Economia criativa e branding territorial

Economia criativa e branding territorial

Volto a um tema que me é caro, falo do papel da economia criativa no que diz respeito à fusão de recursos materiais e imateriais, à promoção de uma geografia desejada e à função primordial de curadoria territorial por parte de um ator-rede na montagem de um geossistema ou arranjo produtivo local. O enoturismo é, porventura, o melhor exemplo desta cadeia de valor da economia criativa e branding territorial. Nela vamos encontrar a produção vitivinícola, a conservação pelos socalcos, o recreio e o lazer da visitação local e regional, a cultura da vinha e do vinho, a tecnologia digital, a produção de conteúdos e a comunicação simbólica, enfim, os terroirs vinhateiros da nossa imaginação tornados realidade material nas encostas do Douro, por exemplo, ou seja, a fusão entre fatores criativos e fatores produtivos levada a efeito por uma verdadeira curadoria territorial.

Recursos criativos e dilatação dos territórios

A sociedade da informação e conhecimento provoca uma espécie de dilatação dos territórios e essa dilatação é a fonte para outras formas de riqueza. Não se trata da dilatação dos corpos provocada pelo aquecimento global e as alterações climáticas. Venho, antes, falar da cadeia de valor que está implicitamente contida nos elementos criativos - património e paisagem, ciência e tecnologia, artes e cultura - que nós ainda não fomos capazes de transferir para os nossos territórios por causa de um défice estrutural de informação e conhecimento em sentido largo de que padecem as nossas comunidades territoriais e os seus incumbentes principais. Para ilustrar este défice, ou baixa dilatação, vou tomar em consideração duas resoluções do Conselho de Ministros, a RCM nº 42/2019 de 21 fevereiro sobre o Plano Nacional das Artes e a RCM nº 50/2021 de 11 maio sobre a Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Socorro-me dos argumentos contidos nas duas resoluções.

"Como afirmou Sophia de Mello Breyner Andersen, na intervenção que fez na Assembleia Constituinte, em 2 de setembro de 1975: «(...) a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades. A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar, para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça (...). Nesse sentido, a estética não está distante da ética nem da política. Recuperaremos, com esta certeza, o propósito e esforço de muitos artistas desde os anos 60 e 70 do século XX: cruzar a arte e a vida, revelá-las como uma unidade. Assim, não valorizaremos apenas o objeto artístico, mas o processo criativo e a atitude livre.

Numa época marcada pelo utilitarismo e pelo desejo de eficiência e produtividade as práticas artísticas podem renovar os processos pedagógicos evitando uma lógica instrumental do uso das artes e a sua domesticação. Através das artes, das atividades culturais, do acesso ao património material e imaterial, ampliar-se-á a quantidade e qualidade de vivências e competências, reforçando a abertura à comunidade e ao mundo. Há múltiplas linguagens e diversos modos de expressão pessoal e compreensão do mundo, que devemos ajudar a desenvolver. As artes permitem, assim, encontrar outros códigos, que complementam aqueles que tornámos centrais na nossa sociedade e educação: o verbal e o da racionalidade lógica. Racionalizámos em demasia a educação, é preciso educar e formar para as diversas linguagens, inteligências e modos de comunicar. Nem todos se enquadram na linguagem da racionalidade lógico-verbal. Esses sentem-se excluídos e poderão encontrar nas expressões artísticas o seu meio e o seu elemento, um caminho para a sua realização pessoal e participação no bem comum.

A especialização excessiva, a homogeneização curricular, as disciplinas fragmentadas e fechadas em si não permitem a compreensão da complexidade do mundo. A proximidade e familiaridade com as artes e o processo criativo poderão incentivar dinâmicas transdisciplinares, o cruzamento e integração dos conhecimentos apreendidos nas várias disciplinas fragmentadas curricularmente, permitindo uma visão de conjunto. O poder indisciplinador das artes, inquietando, desarrumando e pondo em causa a ordem e certezas habituais, pode abrir um espaço de liberdade para a construção pessoal e coletiva: um lugar e um tempo de questionamento e abertura. O maior poder da criatividade, mais do que criar coisas, é mudar o nosso olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos e transformar a nossa vida e a de outros. O processo criativo é promotor de transformações não só exteriores, mas interiores. Desequilibra para reequilibrar".

O que aqui fica dito, a propósito do Plano Nacional das Artes, é, igualmente, válido para o Plano Nacional de Leitura, o Plano Nacional de Cinema, o Programa de Educação Estética e Artística, o Programa de Bibliotecas Escolares, a Rede Portuguesa de Museus e a Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Todos estes instrumentos de programação e planeamento podem estar ligados ao território e à sua dilatação, seja por via da itinerância das coleções de arte, das visitas guiadas, dos percursos de natureza e das paisagens literárias, das residências artísticas e das artes de rua, da arte sacra e dos lugares de culto e peregrinação, dos museus e dos vestígios arqueológicos, dos centros de ciência viva e dos endemismos locais, dos inúmeros centros interpretativos, entre muitos outros sinais distintivos territoriais.

Economia criativa e marca territorial

Dito isto, o que têm em comum iniciativas tão diversas como os roteiros do património da SPIRA, a Bienal Ibérica de Património Cultural, a programação cultural da ARTEMREDE, a Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, o Festival Terras Sem Sombra no Alentejo, os roteiros Experimenta-Paisagem de arte pública no Pinhal Interior, os inúmeros centros de arte contemporânea abertos recentemente por todo o país, os Festivais e os Roteiros Literários em vários concelhos, as Festas do Povo de Campo Maior e a Festa das Ruas Floridas do Redondo, a iniciativa um Território a Descobrir - Montado de Sobro e Cortiça, as denominações Unesco, as redes de cidades criativas e as capitais europeias da cultura, entre muitas outras manifestações?

Estamos a falar de sinais distintivos territoriais e elementos criativos por excelência de um território. Falta, porém, em muitos casos, conexão produtiva e intensidade-rede, visibilidade e projeção internacional, o músculo e a flexibilidade da governação multiníveis, mas, falta, sobretudo, o pensamento e ação estratégicos capazes de utilizar esses recursos criativos para produzir valor especifico próprio e, a seguir, transferir esse valor para os produtos, as fileiras económicas e os arranjos produtivos locais e regionais, recebendo em reciprocidade a colaboração, o patrocínio e o financiamento participativo dessas atividades. Dou um exemplo simples a partir de uma realidade local do interior: como é que os extraordinários painéis coloridos do museu do azulejo de Estremoz, em conjunto com as artes de pedra mármore do concelho e os conhecidos bonecos artesanais de Estremoz podem ser projetados e incorporados como ícones territoriais nos produtos tradicionais da agricultura do Alto Alentejo e em novos arranjos produtivos locais fazendo evoluir toda esta sub-região para um terroir de reputação e visitação internacionais?

Economia criativa, sinais distintivos e geografia desejada

O universo material e simbólico de uma região contém muitos signos distintivos territoriais, muitos deles ocultos, subestimados ou ignorados. Por exemplo, o mosaico agro-silvo-pastoril e paisagístico do montado, os sítios da rede natura 2000 e as áreas de paisagem protegida, a biodiversidade, os endemismos e os serviços de ecossistema, as fontes e as minas de água, as amenidades e os percursos de natureza, as denominações de origem protegida (DOP) e os nichos de mercado, as apelações de património imaterial da UNESCO, o estatuto de reserva da biosfera, as medidas de mitigação e reabilitação, os campos e as estações arqueológicas, os monumentos, as vistas panorâmicas, os ofícios e o artesanato, as celebrações e a cultura tradicional, a literatura oral e as paisagens literárias, todos são exemplos de signos distintivos territoriais, SDT que podem contribuir decisivamente para a construção da iconografia de uma região, a sua imagem de marca impressiva territorial.

Os signos distintivos são, portanto, informação bruta acerca de um território e, ao mesmo tempo, ângulos diferentes de abordagem da história de vida desse território. O grande desafio que se segue, é, para lá da nomenclatura estatística (NUTS) ou divisão administrativa, a descoberta e a promoção de uma geografia desejada, a busca de sentido e significado, que nos devolvam o território como paisagem orgânica global, como território-ser vivo, capaz de inteligência coletiva e, portanto, de uma direção e linha de rumo próprias.

É aqui, justamente, que pode emergir o lado mais criativo da economia digital e das artes digitais em geral e o papel transversal da curadoria territorial numa espécie de montagem pós-produção do sistema produtivo local, do seu cabaz de produtos e suas cadeias de valor. O melhor exemplo deste exercício de montagem é aquele que está em curso com as candidaturas de 12 cidades portuguesas a capital europeia da cultura 2027. Nesta linha, vejamos, então, aquilo que poderia ser um programa de economia criativa e curadoria territorial.

Um programa de economia criativa e curadoria territorial

Com mais recursos à nossa disposição, materiais e imateriais, trata-se, agora, de montar um estaleiro de economia criativa, arquitetura e curadoria territorial em direção a um objetivo mais ambicioso, muito para lá das convencionais indústrias culturais de cariz urbano. Mais cidade no campo e mais campo na cidade é o lema fundamental do que eu costumo designar como o universo da 2ª ruralidade. Estou convencido de que a conexão das redes 4G e 5G impulsionará a convergência entre as transições climática, energética, ecológica e digital e essa convergência será o grande motor do universo da 2ªruralidade, por exemplo, no âmbito do combate às alterações climáticas e das novas relações cidade-campo. Temos, de resto, motivos para estarmos moderadamente otimistas na década que agora começa:

- Temos um país cada vez mais pequeno devido às redes digitais de comunicação,

- Temos um país bem servido de boas vias de comunicação e rede logística,

- Temos muitas instituições de ensino superior espalhadas pelo país,

- Temos muitos centros tecnológicos e laboratórios associados no interior do país,

- Temos imensas estruturas municipais e associativas espalhadas pelo país,

- Temos uma grande variedade de microclimas, mosaicos e amenidades paisagísticas,

- Temos meios financeiros muito substanciais para a década,

- Temos mais nomadismo digital e mais mobilidade de talento criativo.

Ora, um dos grandes trunfos para esta década é, justamente, o hibridismo do espaço rural, um híbrido de produção, consumo e conservação, que não só alarga os mercados de futuro como a tipologia de agriculturas AAA (agricultura, ambiente, alimentação) e a gama de produtos oferecida. Os mercados de futuro serão um mix cada vez mais complexo de tecnologia, ecologia e economia com uma oferta conjunta de bens e serviços cada vez mais diversificada. Neste contexto, as comunidades locais inteligentes, apoiadas em plataformas digitais colaborativas, podem acolher muitos projetos, empreendimentos e start ups e oferecer uma gama variada de serviços de rede em diversas áreas, por exemplo:

- Os serviços ligados à agriculturas de precisão e aos modos intensivos de produção,

- Os serviços ligados às agriculturas de nicho, denominações e indicações geográficas,

- Os serviços ligados à logística dos circuitos curtos e mercados locais,

- Os serviços ligados à economia circular, bioeconomia e ecossistemas,

- Os serviços ligados às bioenergias e redes energéticas,

- Os serviços ambulatórios ao domicílio e os programas de envelhecimento ativo,

- Os serviços de reabilitação e restauro do património natural e construído,

- Os serviços de produção de conteúdos para eventos criativos e culturais,

- Os serviços técnicos e tecnológicos ligados aos ambientes inteligentes e gestão SIG.

Bastaria o elenco destes serviços para demonstrar como o nosso conceito de economia criativa é muito abrangente e multidisciplinar. Dito isto, os exemplos que se seguem são algumas configurações de territórios-rede onde a curadoria e a arquitetura de interiores são fundamentais. Em cada caso, é essencial apontar um grupo de missão, um ator-rede, que seja capaz de relevar os sinais territoriais mais distintivos e, a partir deles, construir novos territórios simbólicos e uma nova arquitetura de interiores. Sem eles, e sem a malha que eles constituem, não haverá uma verdadeira interligação de territórios e, portanto, uma genuína valorização do interior.

1) A construção de um sistema alimentar local (SAL)

2) A construção de uma denominação de origem protegida (DOP)

3) A construção ou requalificação de um mercado ou segmento de nicho

4) A construção de um complexo agroturístico com campo de férias e aventura

5) A construção de uma marca coletiva para o lançamento de uma gama de produtos

6) A construção de um sistema ou mosaico agroflorestal (SAF)

7) Criação ou reforço de um centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística

8) A construção de um parque biológico e ambiental em zona de montanha

9) Um Parque Agrícola Intermunicipal com objetivos de inclusão social

Notas Finais

Como vamos, então, abordar a economia criativa destes territórios que nos introduzem ao grande universo da 2ª ruralidade? Vamos deixar estas pequenas economias rurais ao sabor dos avisos de concurso, mais ou menos aleatórios, que não comunicam entre si para efeitos de planeamento e administração territoriais, vamos perder os efeitos externos positivos dos investimentos e sofrer/protestar apenas por causa dos efeitos externos negativos, vamos deixar ao acaso a interligação entre os investimentos diretamente produtivos e as ações integradas de base territorial, vamos subestimar a introdução das TIC nas explorações agrícolas, redes de extensão rural e formação profissional, enfim, qual o papel que vamos pedir às instituições de ensino superior, aos centros de investigação e aos laboratórios no desenvolvimento da economia rural e regional? Fica o meu contributo com a promessa de voltar ao assunto.

*Professor Catedrático da Universidade do Algarve

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