www.publico.ptpublico@publico.pt - 5 jul. 01:04

Impasses na saúde

Impasses na saúde

O ensino em Portugal e nos países desenvolvidos já não é formador de homens e mulheres, está a transformar os jovens em técnicos de fazer dinheiro para si ou para outrem.

Há um problema na saúde que não é só português. A civilização ocidental, ao fazer progressos óbvios na ciência, mudou a sua relação com o humano. Achamos hoje que tudo nos é possível mas não é. Um dos exemplos desta mentalidade foi a proposta (felizmente abandonada) da ministra da Saúde (mulher que, aliás, admiro) de prejudicar os médicos (suponho que os de família e ginecologistas) cujas pacientes recorressem ao aborto, como se eles fossem os pais das crianças que nascem. Claro que a ciência evoluiu muito na ajuda às mulheres que não querem engravidar e que os médicos podem ajudá-las a evitar gravidezes indesejadas. Mas claro também que o desejo de ter filhos não é só racional. Depende de factores variados, do pai, da mãe, de eventuais irmãos, do momento da vida que é muitas vezes, quase sempre, inconscientemente mais forte do que a razão. E os médicos não podem controlar coisas que os próprios pacientes não controlam, nem sabem que não controlam.

Por outro lado, a medicina não é o que era. Se tem à sua disposição meios muitíssimo mais eficazes para agir, também se desumanizou. Já nada tem a ver, para o melhor e para o pior, com o ainda nosso conhecido João Semana. Comecemos pelo princípio: a nota para entrar na faculdade. Porque é que um aluno com 18 ou 19 valores no secundário terá mais vocação para médico do que um de 13 ou 14? A profissão médica, apesar da técnica de hoje, é e será sobretudo clínica. Ao contrário, por exemplo, dos engenheiros e dos arquitectos que são técnicos por excelência, os médicos estão na outra ponta da escala, são fundamentalmente clínicos. Não tratam de um corpo vivo, dos seus órgãos, tratam de um corpo humano que fala.

Porque é que um aluno com 18 ou 19 valores no secundário terá mais vocação para médico do que um de 13 ou 14?

Uma das formas de falar é a psicossomática. E se um médico hoje, porque pode, só liga ao computador, não ouve nem olha nos olhos o seu paciente, não lhe permite desabafar consigo, antes dando-lhe a entender que o resultado dos exames são tudo o que interessa, então não é um clínico, não é um profissional que utiliza a relação e a fala para conhecer e dar a conhecer ao seu paciente o que o transtorna.

Nós ficamos muitas vezes doentes por razões mentais. Dois anos de covid-19, com tudo o que implicou na nossa vida pessoal, e quatro meses de guerra estão na origem de muitas corridas ao médico e às urgências pelos mais diversos transtornos. E a ausência de fala do médico aumenta o medo dos pacientes que multiplicam as visitas às urgências criando blocagens. Aliás, como nos mostrou da melhor maneira a jornalista Teresa de Sousa, o que se passa actualmente nos hospitais portugueses passa-se nos hospitais da França, Alemanha e Inglaterra, por exemplo.

O que nós pais dizemos aos nossos filhos é que o sucesso escolar é que lhes dará uma boa vida. Nem nós nem a escola lhes ajudamos a conhecer o mundo, a vida, os outros, a genealogia. A alteridade, a anterioridade e a autoridade. O impossível. A cultura tradicional feita da relação e da fala em pequenas comunidades.

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