observador.ptObservador - 4 jul. 00:04

A declaração de guerra (económica) e o nascer do Ocidente

A declaração de guerra (económica) e o nascer do Ocidente

A ameaça que Putin sentiu não é militar, mas política. Se a pressão para melhoria dos níveis de vida chegou à Ucrânia e Bielorrússia, eventualmente chegaria à Rússia.

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O evento do passado dia 17 junho, com a inauguração do fórum económico internacional, deu lugar a um discurso de Putin que convém analisar. Nesse discurso, Putin destaca o falhanço das sanções, desvaloriza a hegemonia dos EUA, critica o domínio do dólar, critica a UE, sublinha que as sanções e políticas económicas da UE e EUA causaram mais danos aos próprios do que à Rússia e declarou o fim do mundo unilateral e uma mudança na ordem internacional. Adicionalmente, Putin desenha o ocidente como um bully que não aceita ser desafiado, dando exemplos como o Iraque e Síria, na típica tradição de acusar os outros daquilo que ele próprio faz.

Posto isto, de acordo com a minha análise, numa aparente declaração de vitória Putin na verdade está a fazer uma declaração de guerra. Apesar das sanções já de si equivalerem a uma escaramuça económica, elas simplesmente funcionam como um mecanismo de coação e são reversíveis. Contudo, a Rússia começou esta semana a cortar abertamente o abastecimento de gás à França, Itália e Alemanha, e clama pelo fim do domínio do dólar e do mundo Ocidental. As palavras, neste caso são vento, mas as acções juntam-se a um terramoto económico que vai separar o Ocidente da Rússia.

Ameaça militar ou política?

Para desconstruir este conflito, gostaria de falar sobre o maior ativo ocidental que permite o domínio do cambio internacional: confiança. O nível de confiança por parte dos agentes económicos relevantes no Ocidente, apesar de levemente traída pela impressão de moeda (para dar alguma razão a Putin), não tem paralelo no resto do mundo. Isto porque no Ocidente, tanto em termos absolutos, como em termos relativos ao resto do mundo, as instituições como o Estado de Direito, Direito Internacional, a comunicação social livre e a estrutura de separação de poderes funcionam com eficácia suficiente para minimizar os custos associados a uma qualquer incerteza. Qualquer investidor que ponha o seu dinheiro na Rússia não sabe se um dia o Putin (ou outro alguém poderoso) acorda ganancioso e lhe vai ao bolso. No Ocidente isso acontece com muito menos frequência e de forma menos arbitrária.

Por este motivo, a Rússia não tem a mínima hipótese de concorrer com os aliados em termos de se tornar num centro da finança ou de comércio, sectores em que o nível de confiança é crucial. Por razões semelhantes, a China também se apresenta como uma alternativa fraca. Apesar do comportamento chinês ser menos errático que o russo, o poder absoluto do partido comunista gera desconfiança. Há fortes sinais de que um investidor estrangeiro na China arrisca sempre ser alvo de espionagem industrial suportada pelo estado. Além disso, há a sensação de que a China só se comporta de forma adequada para dar uma imagem credível e de alternativa aos EUA, e que esse bom comportamento acabaria no dia em que se escolhesse a China como poder hegemónico. Em sentido oposto, nos EUA há um maior nível de regulamento e menor poder estatal, na China o comité central do Partido Comunista tem a última palavra em tudo.

Posto isto, podemos verificar que também há aqui um confronto civilizacional maior, porque enquanto nós, na Europa, somos livres, isto é, regidos por democracias e estados de direito que conferem um poder ao povo e uma verdadeira hipótese de lutar contra os crimes e abusos – e não nos enganemos: este é o nosso garante de qualidade de vida e também o que nos trouxe riqueza – países como a Rússia têm uma elite governante muito desinteressada em dar poder ao individuo ou descentralizar.

A história sugere que desde que o ser humano se tornou sedentário, nos últimos dez mil anos, o direito, a lei e a sua efectiva aplicação foram um factor determinante de riqueza e de melhoria na qualidade de vida dos povos. E ainda hoje este factor é visível quando vemos as diferenças entre a UE e as vizinhas Rússia ou Bielorussia. É a meu ver, este mesmo factor que conduziu aos eventos da Ucrânia, em que uma porção crescente da população ucraniana viu mais vantagens no modelo a Ocidente, com os irmãos da ex-URSS – Polónia, Hungria, Roménia, Eslováquia – todos a atingirem melhores níveis de vida, e os russos e bielorussos a perderem nível de vida. Atrevo-me a dizer que este factor é chave para o confronto actual, pois a ameaça que Putin sentiu não é militar (como fingem ser, acusando a NATO), mas política. Se esta pressão de melhoria dos níveis de vida, que serve de veículo para os ideais do estado direito, liberdade individual e tolerância na Europa de Leste chegou à Ucrânia e Bielorrússia, eventualmente chegaria à Rússia.

Adicionalmente, para além dessa, há outra causa para este confronto, menos importante na minha opinião, mas ainda assim muito importante: a da transição energética. Do ponto de vista russo, como vendedores de combustível fóssil com reservas enormes, cada ano que passa torna a Rússia menos relevante, e o seu poder diminui um pouco, à medida que os europeus vão investindo em energias renováveis. Por isso, urgia, do ponto de vista deles, agir para segurar o máximo de poder enquanto ainda tinham alguma chance, e fizeram isso mesmo causando uma crise energética na Europa, usando a energia (gás) como arma de arremesso e chantagem, ao mesmo tempo que usam o seu maior ativo: o poderio bélico.

Impacto em quatro centros geopolíticos

Para os EUA isto são boas notícias: a Europa ficará do seu lado e terá nos EUA uma alternativa energética, assegurando a sua hegemonia transatlântica. Adicionalmente, o mundo que a Rússia está a convidar, isto é, a nova ordem internacional que Putin tenta trazer beneficia dois agentes: os mais bem armados, e os que têm recursos energéticos. Quanto ao dólar, continua a não ter paralelo no mundo devido à confiança, e nem os russos nem os chineses estarão dispostos a dar força às criptomoedas, que seriam a única alternativa viável, e mesmo que dessem não é garantido que estas moedas dominassem. Ora os EUA (como entidade geopolítica) são atualmente os maiores nos dois campos. Se se quebrar a ordem internacional e se se tornar a ONU obsoleta ou irrelevante, a enorme força armada dos EUA poderá agir com carta branca nos quatro cantos do globo. Isto não acontece necessariamente, mas se a instabilidade se for instalando com guerras como a da Ucrânia, com mais violações flagrantes do direito internacional, eventualmente aqueles na política americana que pertencem à linha dura terão mais tendência a prevalecer, levando provavelmente a mais intervenções militares (Venezuela ou Irão).

Para a UE, são péssimas notícias. Os russos deram um tiro no pé para ferirem a UE, numa política lose-lose, em que só ganha uma pequena elite na Rússia em detrimento do seu próprio povo. À EU resta segurarem a sua última gota de soberania. As políticas que a meu ver são urgentes exigem um tipo de liderança que não se vê há muito: o tipo de liderança de Churchill, ou de guerra, se o leitor preferir. A Europa tem de reconhecer a sua humilde posição e comunicar ao povo que teremos de atravessar tempos difíceis para podermos fazer esta guerra económica. Será necessário racionar o gás e trabalhar arduamente para que se substituam os bens importados dos países que nos são hostis (incluo a China caso seja viável), sendo selectivos para atingir o consumo, minimizando o impacto na produção. A produção precisaria de apoios, e apoio à oferta do máximo de bens substituíveis que for possível. Seria uma política de longo prazo, mais prudente, para manter o máximo nível de vida possível.

Para a Rússia não há ganhos, mas pode haver para a elite que a governa. Na Rússia, o impacto económico das sanções é obviamente devastador, a cada mês que passa o país dá um passo atrás na direcção da pré globalização. Seria o equivalente de, em Portugal, tendermos a voltar ao nível de vida dos anos 60. Apesar de manterem alguns parceiros comerciais, é meu entender que o complexo tecido industrial globalizado não sobrevive impune a tal desintegração das cadeias de fornecimento. É, a meu ver, o país que mais está em decadência dos quatro, pois abdicou de avanços no nível de vida e boas relações comerciais com a Europa, que lhes garantiam algum conforto e poder, e virou-se para dentro numa jogada que porá os russos a níveis de vida de Terceiro Mundo. Ironicamente, Putin já se aproveita disto no seu discurso, falando a parceiros do Terceiro Mundo com cumplicidade, enquanto se atira ao primeiro mundo rico. A única vantagem que daqui advém é que os russos têm recursos energéticos consideráveis, que neste novo mundo multipolar é uma arma poderosa. Adicionalmente, diria que podem fazer uso do seu vasto exército, uma ferramenta outrora limitada no seu uso, mas desconsidera-se por ser aparentemente disfuncional de momento.

Finalmente, a China tem, a meu ver, muito a perder e pouco a ganhar com esta situação. A China desejava substituir os EUA num mundo unipolar (contrariamente ao que alegam os próprios, afirmando serem por um mundo multipolar). Essa minha visão prende-se com a sua estratégia notavelmente global, ao contrário da estratégia regional seguida por exemplo pela Rússia. Ora no mundo novo de Putin, cada região ditará o seu destino, e isso não serve à China por duas razões: tem uma enorme população e indústria crescente que exigem recursos de todos os pontos do globo, e tem um gigante crescente a seu lado que fará num horizonte menos próximo uma formidável concorrência no domínio global e regional: a Índia. A China é o maior beneficiário da globalização, tendo a sua economia crescido a ritmo galopante muito graças à integração do mercado global. Apesar de ter esse “muito a perder”, tem um pouco a ganhar com o facto de o mercado russo, no seu desespero por capital e comércio, se virar para Oriente, oferecendo à China recursos e investimentos a preço de saldo.

Para concluir, estes ventos de mudança tornarão a vida muito complicada para a UE, pois em termos energéticos e militares está muito atrás, enquanto a Rússia e os EUA estão mais preparados para enfrentar os desafios que aí vem. Posso estar errado, pois a Alemanha tem o potencial de se tornar numa grande potencia militar na próxima década. Quem perde mais no meio disto é o homem comum, o cidadão (a humanidade para citar o Papa), que se vê arrastado num retrocesso civilizacional, para um mundo em conflito que exigirá esforço e sacrifício da sua parte. Neste conflito, entre o individual e o coletivo, o homem comum só ganhará com o domínio do Ocidente, sítio que muito boa gente se esquece que é onde o individuo tem mais segurança e menos risco de ser comido por um qualquer “peixe graúdo”.

Deixo a reflexão: Tenderemos nós, cidadãos do mundo a ser carne para canhão em nome de uma fantasia de um homem escondido numa torre alta (como são hoje os russos)? Ou iremos em vez disso erguer-nos mais uma vez para darmos outro passo em frente? Tenho esperança de que nos inspiremos nas lutas semelhantes do passado do Ocidente que definem a nossa cultura: nos Gregos (vs Pérsia), Romanos (vs Cartágo), Portugueses (vs mundo muçulmano árabe), Ingleses (vs Otomanos e Nazis, como primeiro e maior inimigo), Americanos (vs Império Japonês e URSS, como líder do mundo livre), completando este progresso cunhando o termo “Ocidentais” nesta luta eterna contra os ventos bárbaros e escravizantes que o Leste nos traz mais uma vez. Confesso-me verdadeiramente optimista no que respeita à construção de uma identidade ocidental, que tem um passado cada vez mais clarificado pelos nossos confrontos com o Oriente. Não necessitamos de ser inimigos deste Oriente, mas também não podemos ser indiferentes a este embate civilizacional, no qual somos adversários. Do lado de lá, já nos chamam “Ocidentais”, quando é que vamos aceitar este nome, e avançar?

Disclaimer: apesar de falar como um economista, eu não escrevi nenhum artigo científico do tema, nem o estudei de forma académica como deve ser (i.e. recorrendo a números), e como os “verdadeiros” economistas fazem. Aqui proponho-me a fazer apenas um exercício de pensamento, e procuro expressar a minha visão sobre o assunto, que se baseia na maneira de pensar que me é inerente, mas que não deixará de ter em parte um contributo ligado à minha vocação, que é a economia, e a minha paixão, que é a política.

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