observador.ptObservador - 4 jul. 00:14

Contemplativo na acção

Contemplativo na acção

Tive sobretudo o privilégio de ser amigo de António Vaz Pinto. Era visita de casa, frequente e caloroso, com quem discutíamos as questões da Igreja, da Universidade, da Política, da Cultura portuguesa

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Era assim que S. Inácio queria os jesuítas. Foi assim que, ao longo da história, se caracterizaram. Foi assim que foi o P. António Vaz Pinto, que acaba de falecer com 80 anos.

A sua vida foi uma sucessão de iniciativas notáveis que, se deixaram a sua marca pessoal, prosseguiram sem ele. O seu activismo impressionante, criador de obras extraordinárias, radicava numa grande paixão pela maior glória de Deus, pela Igreja.

Inteligente e culto, não se entregou à vida intelectual. Era um “intelectual orgânico”. Estudava e lia  o suficiente para poder fecundar a sua acção apostólica. Seguia a vida cultural e política do país, procurando marcá-las a partir de fora, do ponto de vista religioso.

Ordenado em 1974, regressado ao país depois dos estudos de teologia na Alemanha, começou a sua vida criando Centros Universitários (primeiro em Coimbra depois em Lisboa) e organizando o Forum Estudante. Reunia estudantes e professores, católicos e não-católicos, para debater problemas da Universidade e da sociedade. Nisto se descortina uma intuição jesuitica: não só a formação da juventude, como também a percepção da importância das elites e seu efeito multiplicador do ponto de vista intelectual e moral. António Vaz Pinto foi um típico jesuíta, que assumiu e integrou a espiritualidade inaciana, mas também a compreensão das estratégias mais fecundas de evangelização. Começou por cima, pela formação dos líderes, pela pastoral da cultura e da inteligência.

Não deixou, no entanto, de se preocupar com os pobres e deserdados. A sua consciência social levou-o a cuidar dos que tinham fome, dos que precisavam de ser estimulados para o desenvolvimento, dos refugiados. Ajudou a criar o Banco Alimentar contra a Fome, onde o seu nome permanece como memória de gratidão; lançou os Leigos para o Desenvolvimento, levando dezenas e dezenas de jovens portugueses a países sub-desenvolvidos, em permanências suficientemente prolongadas para tornar eficaz a intervenção; criou o Centro de S. Cirilo no Porto, para apoio aos refugiados. Aceitou ser Alto Comissário para as Migrações, não por ambição, mas unicamente por serviço. Colaborou com a Fundação Pro Dignitate de Maria Barroso, para promover o apoio a povos sub-desenvolvidos. Nisto foi um jesuíta moderno: aliou a intervenção junto das elites com a preocupação activa e criadora pelos mais fracos e necessitados.

Tinha consciência das suas raízes: quer as familiares, quer as religiosas.

Orgulhava-se da longa tradição familiar a que pertencia, quer do lado paterno (Vaz Pinto) quer do lado materno (Castro). Acumulava em si um enorme capital cultural e moral, que faziam dele uma personalidade superior, que lhe emprestava uma autoridade amplamente reconhecida. Escreveu um livro sobre a Casa do Burgo em Arouca, para compreender e divulgar as raízes familiares genealógicas de Vila Meã do Burgo. E falava do grande Bispo de Coimbra Bastos Pina, confessor da Rainha D. Amélia, seu tio materno, e de Eugénio de Castro – grande poeta simbolista – seu avô materno.

Orgulhava-se igualmente da tradição jesuítica a que pertencia e a que dava continuidade. Celebrou a sua primeira missa na Igreja de S. Roque, que foi da Casa Professa dos jesuítas antes da expulsão pombalina. Foi ali que, durante anos, celebrou aos domingos, reunindo numa comunidade muitos que nele encontravam um ponto de referência espiritual. A sua era uma catequese jesuítica, culta, fundamentada, prospectiva para o mundo que era preciso evangelizar. Falava da história da Companhia de Jesus com entusiasmo, e procurava dá-la a conhecer, não apenas em termos teóricos, mas também práticos. Levou muitos às Reduções do Paraguai, onde os jesuítas escreveram uma das páginas mais gloriosas da sua história. Tive o privilégio de com ele co-organizar um colóquio comemorativo do centenário de Suarez, sepultado em S. Roque, precisamente quando ele era capelão da Santa Casa da Misericórdia a quem pertence a Igreja.

Aceitava os desafios da modernidade, percebendo a necessidade de novos meios para transmitir a mensagem. Assistente da Radio Renascença, envolveu-se  no lançamento da TVI.

Sabia que para evangelizar o mundo era preciso aproximar-se dele, desafiá-lo, provocá-lo. Por isso aceitou o meu convite para participar  no colóquio “Entre fé e laicidade”, com painéis de confronto entre laicos laureados internacionalmente (Saramago, Siza Vieiras, João Lobo Antunes[1]), e jesuítas. Coube-lhe discutir com Saramago. Na memorável abertura entre Mário Soares e D. José Policarpo, o auditório do S. João de Brito, estava a transbordar, tendo ficado de fora, a assistir por écrans, outros tantos interessados.

Era um inaciano puro, que fazia dos Exercícios Espirituais a actividade mais importante da sua vida. Centenas de pessoas fizeram com ele exercícios espirituais, nas mais variadas casas de retiros, desde Soutelo (no Norte) até ao Rodízio (na Praia Grande) ou Palmela. A par dos Exercícios, dava “cursos de iniciação à fé”, para descrentes e crentes pouco conscientes.

Foi assistente espiritual de um grupo de reflexão que, entre amigos, constituímos. Acompanhou-nos no início e no fim, quando esteve em Lisboa.

De grande poder de iniciativa, e com uma invulgar capacidade de empreender, deixou inúmeras obras: os centros universitários de Coimbra e de Lisboa, o Forum Estudante, o Banco Alimentar contra a Fome, os Leigos para o Desenvolvimento, o Centro S. Cirilo para os refugiados no Porto. Na sua mente fervilhava um turbilhão de ideias, pelas quais queria realizar a “maior glória de Deus” no mundo.

Deixou dois livros de memórias, que titulou como História de Deus comigo, onde não hesita em dar-se a conhecer, até interiormente. Não conheço memórias pessoais de jesuítas, apenas relatos de actividades, cartas ánuas. Há, porém, uma excepção: o próprio S. Inácio, que ditou ao P. Gonçalves da Câmara a sua autobiografia.

Quando, já internado, lhe mandei uma mensagem elogiando com entusiasmo o segundo volume das Memórias História de Deus comigo, telefonou-me duas vezes do Hospital em que fora internado. Queria perceber porque é que o que deixara escrito era “fantástico”, como eu lhe dizia. Tive ocasião de lhe lembrar que seguira o exemplo de S. Inácio.

Tive o privilégio de ser seu colaborador em inúmeras iniciativas. Entre outras, a constituição de um grupo de apoio à sua nomeação como assessor da Conferência Episcopal, juntamente com Maria José Nogueira Pinto, Francisco Sarsfield Cabral e Guilherme Oliveira Martins, e ainda o Conselho de Redação da Brotéria.

Sobretudo, tive o privilégio de ser seu amigo. Era visita de casa, frequente e caloroso, com quem discutíamos as questões da Igreja, da Universidade, da Política, e da Cultura portuguesa. Deu a primeira comunhão a um filho meu; casou-me outro. Em momentos importantes da nossa vida familiar estava connosco, como se fosse um de nós. Aparecia sem avisar, porque era íntimo. Com ele, parte também algo de nós e da nossa história.

[1] João Lobo Antunes perguntou com graça, ao iniciar o seu debate com Luis Archer, porque o haviam “colocado entre os ímpios”.

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